{"id":1018,"date":"2021-04-03T10:17:05","date_gmt":"2021-04-03T13:17:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?page_id=1018"},"modified":"2021-04-03T10:17:06","modified_gmt":"2021-04-03T13:17:06","slug":"aranha-a-artista","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?page_id=1018","title":{"rendered":"Aranha, a artista"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-8d74995f\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-9023a9e3\">\n<p>Se <em>Africanfuturism<\/em> \u00e9 uma palavra desconhecida no seu vocabul\u00e1rio, ent\u00e3o \u00e9 hora de tornar o termo relevante em suas leituras: criado e definido por Nnedi Okorafor, a escritora oferece diversas obras aclamadas que nos introduz \u00e0s produ\u00e7\u00f5es culturais que est\u00e3o mais enraizadas nas hist\u00f3rias africanas. Aranha, a Artista \u00e9 um excelente exemplo de como o <em>Africanfuturism<\/em> nos fornece uma perspectiva n\u00e3o estereotipada da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ambientada no continente africano.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa descreve um futuro dist\u00f3pico, em que humanos e rob\u00f4s habitam uma aldeia de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. A conviv\u00eancia entre os seres \u00e9 marcada pela hostilidade em meio aos brutais assassinatos dos habitantes pelas \u201cm\u00e3os\u201d dos <em>Zumbis<\/em> (assim denominados pela popula\u00e7\u00e3o), pois os rob\u00f4s foram constru\u00eddos pelo governo para impedir, violentamente, os roubos nos oleodutos. Na ironia de roubar o que j\u00e1 lhes pertenciam, os moradores da aldeia v\u00eaem no contrabando do \u00f3leo um m\u00e9todo de sobreviver \u00e0s neglig\u00eancias que o governo os submetem.<\/p>\n\n\n\n<p>O conto, de 25 p\u00e1ginas, integra o Projeto C\u00e1psula da Morro Branco e pode ser lido gratuitamente no site da editora. Originalmente publicado no livro <em>Seeds of Change<\/em> em 2008, a hist\u00f3ria \u00e9 contada por um narrador personagem e est\u00e1 subdividida em pequenos saltos temporais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aranha, a Artista se passa em uma aldeia no Delta do N\u00edger que sofre, assim como na vida real, com a devasta\u00e7\u00e3o ambiental causada pela intensa explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo. A autora exp\u00f5e as condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias da regi\u00e3o, considerada uma das mais polu\u00eddas do planeta, que transcende a fic\u00e7\u00e3o. A aldeia padece com a contamina\u00e7\u00e3o do solo e da \u00e1gua pelo vazamento de \u00f3leos, fazendo com que os habitantes adoe\u00e7am, e precisa conviver com a polui\u00e7\u00e3o sonora e do ar provenientes dos queimadores de g\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>A protagonista, Eme, \u00e9 quem narra a sua hist\u00f3ria como habitante da aldeia. V\u00edtima de agress\u00e3o f\u00edsica do marido alco\u00f3latra, Eme \u00e9 uma mulher infeliz e solit\u00e1ria que constr\u00f3i o seu ref\u00fagio no viol\u00e3o, herdado de seu pai, para esquivar-se da depress\u00e3o.&nbsp; Seu companheiro, Andrew, culpa-a pela incapacidade de gerarem um filho e recorre \u00e0 bebida para controlar a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia diante da perversidade do governo, que caminha da viol\u00eancia policial at\u00e9 a atroz cria\u00e7\u00e3o dos Zumbis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As intelig\u00eancias artificiais s\u00e3o descritas como criaturas gigantes de apar\u00eancia aracn\u00eddea, e apesar de serem programadas apenas para assassinar qualquer um que se aproximasse dos oleodutos, os Zumbis s\u00e3o seres conscientes que gradativamente alimentam um desapre\u00e7o pelos seus criadores. O agridoce da narrativa \u00e9 quando Eme conhece uma zumbi, batizada pela pr\u00f3pria como Udide, e encontra nela a esperan\u00e7a e felicidade que os outros humanos lhe tiraram. Unidas pela m\u00fasica, a amizade e afeto entre as duas cresce em contraste ao \u00f3dio cada vez maior dos Zumbis pela humanidade. Uma rebeli\u00e3o se torna inevit\u00e1vel e \u00e9 nesse contexto que a hist\u00f3ria se encerra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A fic\u00e7\u00e3o do conto se restringe aos rob\u00f4s-aranhas: muitos elementos apresentados pela autora fazem parte da Nig\u00e9ria real. Apesar de quase n\u00e3o descrever o ambiente do enredo, Okorafor insere o leitor no Delta do N\u00edger atrav\u00e9s das refer\u00eancias \u00e0 cultura e ao dialeto nigeriano. \u00c9 na sutil escolha dos nomes que aparecem as lendas africanas, como&nbsp; em Udide Okwanka, a Artista Suprema, e em <em>Anansi Droids 419<\/em>, sendo Anansi o deus h\u00edbrido entre homem e aranha que deu hist\u00f3rias aos humanos. At\u00e9 o detalhe do n\u00famero 419 n\u00e3o parece ser desproposital e \u00e9, possivelmente, uma alus\u00e3o \u00e0 Fraude Nigeriana que consta no C\u00f3digo Penal da Nig\u00e9ria como Artigo 419.<\/p>\n\n\n\n<p>Das g\u00edrias \u00e0s cita\u00e7\u00f5es de grandes artistas nigerianos, a realidade do conto tamb\u00e9m preocupa. A viol\u00eancia e as consequ\u00eancias do abuso psicol\u00f3gico contra a mulher s\u00e3o descri\u00e7\u00f5es t\u00e3o fidedignas que causam desconforto logo nas primeiras frases. Eme se sente respons\u00e1vel pelas agress\u00f5es e pela infidelidade do marido, atribui em si a culpa de sua incapacidade de gerar filhos e \u00e9 obrigada a abandonar seus sonhos por causa do casamento. De t\u00e3o comum, n\u00e3o precisa atravessar o Atl\u00e2ntico para encontrar in\u00fameros casos semelhantes ao da protagonista.<\/p>\n\n\n\n<p>A esperan\u00e7a do conto tem nome e som. A presen\u00e7a da m\u00fasica e de Udide transforma significamente a vida de Eme, e \u00e9 nos detalhes de azul que o leitor acompanha a constru\u00e7\u00e3o do afeto entre as duas personagens. Indo de instrutora a aprendiz, os momentos musicais de Eme com a aranha \u00e9 o que desperta confian\u00e7a na protagonista. A can\u00e7\u00e3o favorita de Udide, <em>No Woman No Cry<\/em>, parece um recado para sua amiga humana de que \u201ctudo ficar\u00e1 bem\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A conflituosa rela\u00e7\u00e3o entre humanos e rob\u00f4s se intensifica e atinge o cl\u00edmax ao final do conto em um confronto entre Homem e m\u00e1quina. O ganho de consci\u00eancia e a revolta dos zumbis contra os moradores da aldeia n\u00e3o parece obra do acaso. Por se tratar de um pa\u00eds com abund\u00e2ncia de petr\u00f3leo, cujo com\u00e9rcio e tecnologia s\u00e3o controlados por empresas estrangeiras, a guerra causa desconfian\u00e7a quanto \u00e0s reais motiva\u00e7\u00f5es dessa rebeli\u00e3o. Quem se beneficiaria com uma iminente guerra civil? A pergunta provoca a reflex\u00e3o sobre como conflitos internos tornam um pa\u00eds mais suscet\u00edvel a interven\u00e7\u00f5es externas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nnedi Okorafor, nascida nos Estados Unidos e de ascend\u00eancia nigeriana, se tornou uma das principais autoras desta gera\u00e7\u00e3o e coleciona diversos pr\u00eamios por seus contos e livros. Dentre os mais famosos, est\u00e3o os pr\u00eamios <em>World Fantasy <\/em>(por Quem Teme a Morte), <em>Hurston-Wrigh <\/em>(por <em>Amphibious Green<\/em>), <em>Hugo Award <\/em>e <em>Nebula Award<\/em> (ambos por Binti). Al\u00e9m de escritora, Okorafor \u00e9 doutora em Ingl\u00eas, leciona aulas de literatura e escrita criativa na Universidade de Buffalo, e tamb\u00e9m roteiriza diversos quadrinhos da s\u00e9rie Pantera Negra, her\u00f3i do universo Marvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A autora tece sua impec\u00e1vel narrativa e prende o leitor nas linhas da hist\u00f3ria de Eme e Udide. Aranha, a Artista \u00e9 uma obra que causa inc\u00f4modo na medida certa: a leitura, totalmente imersiva, aponta o que h\u00e1 de melhor nas Intelig\u00eancias Artificiais quando elas apresentam sentimentos humanos e, paralelamente, o conto tamb\u00e9m exp\u00f5e o que h\u00e1 de pior no ser humano. Apesar de n\u00e3o possuir um p\u00fablico-alvo espec\u00edfico e limita\u00e7\u00e3o de faixa et\u00e1ria, a presen\u00e7a de temas sens\u00edveis, como viol\u00eancia dom\u00e9stica, podem causar desconforto ou ocasionar gatilhos durante a leitura. \u00c9 justamente pela abordagem dos temas, que elucidam a imperfei\u00e7\u00e3o da sociedade fora da fic\u00e7\u00e3o, que o conto de Okorafor faz-se t\u00e3o necess\u00e1rio.<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1018"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1018"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1018\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1020,"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1018\/revisions\/1020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}