{"id":1025,"date":"2021-04-12T23:36:42","date_gmt":"2021-04-13T02:36:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?page_id=1025"},"modified":"2021-04-12T23:36:43","modified_gmt":"2021-04-13T02:36:43","slug":"sons-da-fala","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?page_id=1025","title":{"rendered":"Sons da Fala"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns has-1-columns has-desktop-equal-layout has-tablet-equal-layout has-mobile-equal-layout has-default-gap has-vertical-unset\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-e4947239\"><div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-columns-overlay\"><\/div><div class=\"innerblocks-wrap\">\n<div class=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-advanced-column-8394a314\">\n<h2><strong>Do conto \u00e0 autora<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As diversas obras de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que abordamos nesta se\u00e7\u00e3o t\u00eam, em geral, um elemento em comum: o estranhamento. Este&nbsp; termo \u00e9 utilizado para referir-se&nbsp; ao fato de que o texto e o leitor constroem uma outra realidade&nbsp; baseada nesta em que vivemos e que, a partir de uma mudan\u00e7a de perspectiva, somos levados a refletir sobre as caracter\u00edsticas que relacionam&nbsp; tais realidades.<\/p>\n\n\n\n<p>O conto \u201cSons da fala\u201d, da escritora Octavia Butler, provoca, em poucas p\u00e1ginas, tal sensa\u00e7\u00e3o de estranhamento a partir de diferentes formas. Como exemplo, \u00e9&nbsp; poss\u00edvel identificar problem\u00e1ticas ligadas \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o (ou aus\u00eancia dela), abuso de poder, ra\u00e7a e g\u00eanero em um ambiente dist\u00f3pico em que uma poss\u00edvel pandemia faz com que os seres humanos percam sua habilidade de se comunicar de forma verbal.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Da autora \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Tal distopia \u00e9 apresentada atrav\u00e9s dos olhos da protagonista Rye, situada no meio do caos em que praticamente todas as pessoas t\u00eam a fala, a escrita, a leitura ou a escuta comprometidas. Logo no in\u00edcio do conto, somos expostos \u00e0 brutalidade de uma briga no \u00f4nibus em que a protagonista viaja para buscar parentes ainda vivos em outra cidade. O confronto f\u00edsico resultante da deteriorada&nbsp; comunica\u00e7\u00e3o entre dois homens exp\u00f5e os resultados da poss\u00edvel doen\u00e7a&nbsp; na sociedade mundial: o comprometimento da linguagem leva \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p>Butler mostra-nos&nbsp; que a perda da comunica\u00e7\u00e3o verbal n\u00e3o significa apenas o fim de um c\u00f3digo lingu\u00edstico ou do conjunto de signos que utilizamos para referirmos&nbsp; \u00e0s coisas.&nbsp; Tal perda tamb\u00e9m interfere diretamente na socializa\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos, uma vez que, ao falarmos ou escrevermos, produzimos enunciados com estilos e conte\u00fados que constituem as a\u00e7\u00f5es humanas. Para Bakhtin, fil\u00f3sofo e linguista russo, os enunciados nunca s\u00e3o \u00fanicos, j\u00e1 que est\u00e3o sempre relacionados aos participantes de um di\u00e1logo, sejam eles emissores ou receptores. Assim, podemos dizer que a linguagem vai al\u00e9m de sua dimens\u00e3o comunicacional e estabelece as bases das intera\u00e7\u00f5es sociais entre os sujeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>No conto, isso fica expl\u00edcito ap\u00f3s o incidente no \u00f4nibus, quando um homem com um distintivo oferece ajuda a Rye. O pr\u00f3prio nome do suposto policial \u00e9 assimilado pela protagonista a partir de uma pedra que ele carregava: \u201cO nome dele poderia ser Rock ou Peter ou Black, mas ela decidiu pensar nele como Obsidian\u201d. Todos os gestos produzidos pelas duas personagens podem ter m\u00faltiplos sentidos e isso, somado \u00e0 hostilidade do mundo, faz com que qualquer intera\u00e7\u00e3o se torne um campo minado.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Da comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 internet<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Na contemporaneidade, n\u00f3s fomos capazes de desenvolver novos meios poss\u00edveis de comunica\u00e7\u00e3o humana, o que revolucionou significativamente o modo pelo qual nos expressamos, comunicamos e sentimos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. A aproxima\u00e7\u00e3o da internet com o cotidiano do indiv\u00edduo implicou em uma nova caracteriza\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo: o distanciamento entre o emissor e o receptor da mensagem na comunica\u00e7\u00e3o em tempo real.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Subsequente a isso, podemos observar no conto a limita\u00e7\u00e3o da abrang\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o, o que nos traz um empecilho na forma de como a mensagem \u00e9 recebida. Paralelamente, nos dias atuais, vemos que a internet atua como uma verdadeira &#8220;divisora de \u00e1guas&#8221;, pois a mesma consegue, de uma forma quase instant\u00e2nea, trocar informa\u00e7\u00f5es entre o emissor e o receptor. Na s\u00e9rie de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica &#8220;Black Mirror&#8221;, o epis\u00f3dio &#8220;Queda Livre&#8221; ( &#8220;Nosedive\u201d) aborda, de maneira inteligente, como a troca de mensagens de texto pode ditar as nossas vidas, na qual temos esta extrema preocupa\u00e7\u00e3o pela pr\u00f3pria imagem, pela maneira como o mundo nos v\u00ea, e isso acaba criando uma disputa para alcan\u00e7ar uma classifica\u00e7\u00e3o maior na rede e ser bem visto na sociedade. Isso nos mostra como a popula\u00e7\u00e3o oprimia a protagonista da narrativa, sua personalidade era condicionada, vivia de acordo com o que era bem visto pelas pessoas. N\u00e3o escolhia as suas vontades, apenas o que agradava o meio social.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No enredo de Butler, vemos no final do conto que Rye ainda possu\u00eda a fala, algo que ela manteve escondido por tanto tempo. Mas por qu\u00ea a protagonista teve essa atitude? Percebemos, na trama, que a falta de comunica\u00e7\u00e3o gera uma onda de viol\u00eancia entre as pessoas, e aqueles que foram menos afetados pela doen\u00e7a s\u00e3o perseguidos. Observamos isso quando a protagonista Rye est\u00e1 no carro com Obsidian, e o mesmo pega um mapa e o l\u00ea para buscar um caminho para os dois, Rye sente-se com muita raiva e inveja de Obsidian, pois j\u00e1 n\u00e3o possu\u00eda a habilidade de ler.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Pensando na quest\u00e3o das redes sociais no geral e como elas funcionam, n\u00f3s encontramos certo conflito na forma limitada de expressar nossos sentimentos. No Facebook, por exemplo, temos acesso a 5 sentimentos poss\u00edveis de rea\u00e7\u00f5es a uma publica\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o se mede suficientemente quando nossos sentimentos s\u00e3o postos pessoalmente a algu\u00e9m. No conto, \u00e9 bem vis\u00edvel que a rela\u00e7\u00e3o de Rye com Obsidian, atrav\u00e9s do contato f\u00edsico, podia expressar de diversas maneiras o que cada um sentia pelo outro. Talvez esse seja o problema das redes sociais, onde criamos uma imagem pr\u00f3pria, na maioria das vezes fict\u00edcia, na qual&nbsp; queremos dar ao mundo quem gostar\u00edamos de ser. Em &#8220;Sons da fala&#8221; isso \u00e9 invi\u00e1vel, pois n\u00e3o temos uma comunica\u00e7\u00e3o virtual.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Da internet ao racismo<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong><\/strong>Para os leitores que desconhecem o hist\u00f3rico da autora, podem n\u00e3o notar o cunho representativo que este e as diversas outras obras de Butler t\u00eam em seus enredos. Afinal, como voc\u00ea idealizou as personagens principais: Rye e Obsidian? De forma mais direta, essas personagens eram brancas em seu imagin\u00e1rio?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que somos livres para idealizarmos a hist\u00f3ria que n\u00f3s lemos da maneira que nos conv\u00e9m; na verdade, a ess\u00eancia da leitura \u00e9 a pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o individual do que est\u00e1 sendo lido. Nesse sentido, a autora permite-nos idealizar os personagens desenvolvidos em seu conto de forma livre. N\u00e3o obstante, essa \u00e9 uma oportunidade de imaginarmos os personagens do conto de maneira que os distinga de um estere\u00f3tipo falsamente tido como universal. Desse modo, devemos reconhecer que a capacidade de assimila\u00e7\u00e3o que n\u00f3s temos com a nossa realidade e a rela\u00e7\u00e3o que essa tem diante de um texto fict\u00edcio molda, de forma concreta, a percep\u00e7\u00e3o de mundo que temos, ou seja, at\u00e9 que ponto n\u00f3s somos capazes de imaginarmos aquilo que lemos de acordo com a diversidade de g\u00eanero, sexual e \u00e9tnico-racial que temos em nossa pr\u00f3pria realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a autora instiga-nos a repensar a maneira pela qual n\u00f3s notamos a nossa pr\u00f3pria realidade em um texto fict\u00edcio. Uma das discuss\u00f5es que os textos da autora, como o Sons da Fala, traz-nos \u00e9 a ideia das ra\u00edzes do racismo em nossa sociedade, na qual tendemos a idealizar personagens estereotipados &#8211; brancos -, o que nos impede de afirmar que somos completamente dissoci\u00e1veis do termo racismo. Desse modo, cabe a n\u00f3s tentarmos perceber a nossa realidade de modo que possamos associ\u00e1-la com os diversos textos que nos propomos a aventurar e os imaginar de forma criativa e veross\u00edmil.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Das discuss\u00f5es \u00e0 reflex\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Por fim, podemos dizer que o estranhamento oferecido por Butler em Sons da Fala (como tamb\u00e9m no restante de sua obra) \u00e9 um convite para sairmos do lugar comum da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Seja atrav\u00e9s da reflex\u00e3o sobre a fun\u00e7\u00e3o da linguagem ou pela forma que assimilamos os produtos culturais, somos provocados a revisitar concep\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o tidas como naturais para, enfim, desconstru\u00ed-las.<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1025"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1025"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1025\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1026,"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1025\/revisions\/1026"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}