{"id":1046,"date":"2021-06-15T15:39:22","date_gmt":"2021-06-15T18:39:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1046"},"modified":"2021-06-15T15:39:24","modified_gmt":"2021-06-15T18:39:24","slug":"vacinacao-no-brasil-e-a-instabilidade-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1046","title":{"rendered":"Vacina\u00e7\u00e3o no Brasil e a Instabilidade Social"},"content":{"rendered":"\n<p>Oficialmente, 1798 foi o ano da inven\u00e7\u00e3o da primeira vacina. O v\u00edrus era o da Var\u00edola, a doen\u00e7a que mais matou na hist\u00f3ria da humanidade: 30% dos infectados pelo v\u00edrus morriam. A inven\u00e7\u00e3o da vacina foi creditada ao m\u00e9dico Edward Jenner, que percebeu que os trabalhadores do campo n\u00e3o pegavam var\u00edola. Ao analisar a situa\u00e7\u00e3o mais de perto, percebeu que isso acontecia porque os trabalhadores eram contaminados por uma vers\u00e3o mais leve do v\u00edrus, o da var\u00edola bovina, que s\u00f3 provocava manchas nos humanos, mas n\u00e3o levava \u00e0 morte e esses ficavam imunes ap\u00f3s pegar essa forma mais fraca do v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a primeira vacina que \u201cpisou\u201d em solo nacional foi justamente a da var\u00edola em 1804. Essa conquista s\u00f3 foi poss\u00edvel por conta do Marqu\u00eas de Barbacena. No entanto, o propulsor da vacina no Brasil foi o renomado m\u00e9dico Oswaldo Cruz, ent\u00e3o Diretor-Geral da Sa\u00fade P\u00fablica em 1904. Ele encontrou um cen\u00e1rio de crise sanit\u00e1ria e com diversas epidemias na capital brasileira da \u00e9poca: o Rio de Janeiro.&nbsp; No caso da var\u00edola, apelou para o que foi chamado posteriormente de Lei da Vacina Obrigat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa parte da hist\u00f3ria \u00e9 marcada pela Revolta da Vacina, que consistiu em um movimento contra a obrigatoriedade da vacina\u00e7\u00e3o. Segundo \u00c2ngela P\u00f4rto, pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, esse movimento, quase exclusivamente, ocorreu atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que resultou na divis\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e foi feita por parte da elite brasileira, a qual estava descontente com o governo da \u00e9poca: a Rep\u00fablica presidida por Rodrigo Alves. O objetivo era enfraquecer o governo, mas conseguiu tamb\u00e9m estabelecer a uni\u00e3o de diversos grupos sociais, nos quais, inclusive, alguns eram antag\u00f4nicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim sendo, n\u00e3o \u00e9 especulador comparar os contextos entre a \u00e9poca da revolta da vacina e o que est\u00e1 acontecendo com o nosso pa\u00eds em meio a pandemia do Coronav\u00edrus. Gilberto Hochman, tamb\u00e9m pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, afirma que anos ap\u00f3s a grande revolta de 1904, n\u00e3o houve mais registros de resist\u00eancias contra a vacina\u00e7\u00e3o. No entanto, mais de um s\u00e9culo ap\u00f3s esse epis\u00f3dio, uma parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira come\u00e7ou novamente a questionar aspectos referentes \u00e0 vacina que desde aquela \u00e9poca n\u00e3o eram questionados. N\u00e3o por acaso, existe no nosso contexto atual, uma polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tamb\u00e9m. Entretanto, diferentemente da \u00e9poca da revolta, essa polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 sendo feita para enfraquecer o governo, mas sim para sustent\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a polariza\u00e7\u00e3o tem sim a capacidade de sustentar o governo federal atual, uma vez que ela cria uma identidade muito forte para uma parcela consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Essa identidade fundamenta-se em um perigo que se apresenta no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro contempor\u00e2neo: a ascens\u00e3o do fascismo. Essa ascens\u00e3o \u00e9 representada por uma oposi\u00e7\u00e3o difusa \u00e0s esquerdas, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, bem como aos processos democr\u00e1ticos e ao conhecimento cient\u00edfico, a qual tem provocado &nbsp;uma uni\u00e3o entre diversos grupos sociais que t\u00eam essa mesma concep\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica brasileira, assim como na uni\u00e3o da \u00e9poca da revolta da vacina. Portanto, \u00e9 desse modo que o governo de Bolsonaro sustenta-se nessa ascens\u00e3o e, por esse motivo,&nbsp; consegue unir um grupo significativo de apoiadores para o seu governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa instabilidade pol\u00edtica, em conjunto com uma pandemia global, tem causado desordem em um pa\u00eds que j\u00e1 foi refer\u00eancia em promover a vacina\u00e7\u00e3o em massa. S\u00edmbolos como o Z\u00e9 Gotinha, muito utilizado na d\u00e9cada de 1990 e na campanha de 2006; e iniciativas como o Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00e3o (PNI), que fizeram do Brasil uma refer\u00eancia mundial, tiveram suas a\u00e7\u00f5es limitadas pelo governo por motivos pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos. Al\u00e9m disso, outras a\u00e7\u00f5es como a dificulta\u00e7\u00e3o na obten\u00e7\u00e3o de vacinas, discurso anti-ci\u00eancia, defesa da cloroquina e da imuniza\u00e7\u00e3o de rebanho, fizeram do Brasil um destaque negativo no enfrentamento \u00e0 pandemia. Levando a mais de 450 mil mortos, sem previs\u00e3o de queda expressiva no n\u00famero di\u00e1rio de \u00f3bitos,&nbsp; que, em maio de 2021, supera 2300.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda nesse sentido, um momento hist\u00f3rico est\u00e1 sendo vivenciado por todos n\u00f3s. O negacionismo sobre o impacto do v\u00edrus que estamos observando, perante a maior pandemia do s\u00e9culo XXI, nunca foi testemunhado no Brasil. Na \u00e9poca de Cruz, ele nunca ousou negar a exist\u00eancia de doen\u00e7as ou de cuidar dos seus compatriotas, haja vista o seu cargo importante de Diretor-Geral da Sa\u00fade P\u00fablica. Entretanto, no presente, podemos testemunhar representantes pol\u00edticos que se recusam a levar a sa\u00fade p\u00fablica a s\u00e9rio. \u00c0 vista disso, \u00e9 importante que a gente aprenda com a hist\u00f3ria e n\u00e3o deixemos que o mesmo epis\u00f3dio ocorra, como aconteceu durante a revolta da vacina: a popula\u00e7\u00e3o atue como massa de manobra para servir os interesses de determinados grupos sociais brasileiros; mas aceitemos sim as vacinas que s\u00e3o fiscalizadas pelas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas brasileiras para o pr\u00f3prio bem da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancia Bibliogr\u00e1fica:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.google.com\/search?q=%22Hochman,%20Gilberto%22\">Hochman, Gilberto<\/a>. Vacina\u00e7\u00e3o, var\u00edola e uma cultura de vacina\u00e7\u00e3o no Brasil. <strong>Hist\u00f3ria, Ci\u00eancias, Sa\u00fade-Manguinhos<\/strong>, Rio de Janeiro, v. 16, n. 2, p. 375-386, fev. 2011. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/scielosp.org\/article\/csc\/2011.v16n2\/375-386\/\">https:\/\/scielosp.org\/article\/csc\/2011.v16n2\/375-386\/<\/a>&gt;. Acesso em: 28 abr. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.google.com\/search?q=%22P%C3%B4rto,%20%C3%82ngela%22\">P\u00f4rto, \u00c2ngela<\/a>; <a href=\"http:\/\/www.google.com\/search?q=%22Ponte,%20Carlos%20Fidelis%22\">Ponte, Carlos Fidelis<\/a>.Vacinas e campanhas: as imagens de uma hist\u00f3ria a ser contada.<strong>Hist\u00f3ria, Ci\u00eancias, Sa\u00fade-Manguinhos<\/strong>, Rio de Janeiro, v.10, suppl. 2, p. 725-742, 2003. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-59702003000500013&amp;lang=pt\">https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-59702003000500013&amp;lang=pt<\/a>&gt;. Acesso em: 28 abr. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>CANCIAN, Nat\u00e1lia. Sem vacina, \u2018imunidade de rebanho\u2019 n\u00e3o \u00e9 melhor estrat\u00e9gia, diz Secret\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. <strong>Folha de S\u00e3o Paulo<\/strong>. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2020\/05\/sem-vacina-imunidade-de-rebanho-nao-e-melhor-estrategia-diz-secretario-do-ministerio-da-saude.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2020\/05\/sem-vacina-imunidade-de-rebanho-nao-e-melhor-estrategia-diz-secretario-do-ministerio-da-saude.shtml<\/a>&gt;. Acesso em: 03 maio 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>BOFF, Odete Maria Benetti et al. O g\u00eanero textual Artigo de Opini\u00e3o: um meio de intera\u00e7\u00e3o. <strong>ReVEL<\/strong>, Rio Grande do Sul, vol. 7, n. 13, 2009. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.revel.inf.br\/files\/artigos\/revel_13_o_genero_textual_artigo_de_opiniao.pdf\">http:\/\/www.revel.inf.br\/files\/artigos\/revel_13_o_genero_textual_artigo_de_opiniao.pdf<\/a>&gt;. Acesso em: 28 abr. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>A trajet\u00f3ria do m\u00e9dico dedicado \u00e0 Ci\u00eancia. <strong>Portal Fiocruz<\/strong>. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/portal.fiocruz.br\/trajetoria-do-medico-dedicado-ciencia\">https:\/\/portal.fiocruz.br\/trajetoria-do-medico-dedicado-ciencia<\/a>&gt;. Acesso em: 12 abr. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>SANTOS, Vanessa Sardinha dos. Hist\u00f3ria da vacina. <strong>Brasil Escola<\/strong>. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/brasilescola.uol.com.br\/biologia\/a-historia-vacina.htm\">https:\/\/brasilescola.uol.com.br\/biologia\/a-historia-vacina.htm<\/a>&gt;. Acesso em: 12 abr. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Hist\u00f3ria da vacina\u00e7\u00e3o no Brasil: pa\u00eds \u00e9 refer\u00eancia mundial em imuniza\u00e7\u00e3o. 2019. (2 min.), son., color. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/portal.fiocruz.br\/en\/node\/74687\">https:\/\/portal.fiocruz.br\/en\/node\/74687<\/a>&gt;. Acesso em: 19 fev. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>ROSA, Giovanni Santa. <strong>Como o Brasil se tornou refer\u00eancia em vacina\u00e7\u00e3o e por que este legado est\u00e1 indo para o lixo<\/strong>. 2021. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/gizmodo.uol.com.br\/como-o-brasil-se-tornou-referencia-em-vacinacao-e-por-que-este-legado-esta-indo-para-o-lixo\/\">https:\/\/gizmodo.uol.com.br\/como-o-brasil-se-tornou-referencia-em-vacinacao-e-por-que-este-legado-esta-indo-para-o-lixo\/<\/a>&gt;. Acesso em: 19 fev. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>PONTE, Gabriela. <strong>Conhe\u00e7a a hist\u00f3ria das vacinas. <\/strong>2020. Dispon\u00edvel em:<\/p>\n\n\n\n<p>&lt;<a href=\"https:\/\/www.bio.fiocruz.br\/index.php\/br\/noticias\/1738-conheca-a-historia-das-vacinas\">https:\/\/www.bio.fiocruz.br\/index.php\/br\/noticias\/1738-conheca-a-historia-das-vacinas<\/a>&gt;. Acesso em: 08 de jun. de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os \u00faltimos dias da Var\u00edola. <\/strong>Revista Manguinhos, 2005. Dispon\u00edvel em:<\/p>\n\n\n\n<p>&lt;<a href=\"https:\/\/agencia.fiocruz.br\/sites\/agencia.fiocruz.br\/files\/revistaManguinhosMateriaPdf\/RM8pag44a45FioDaHistoria.pdf\">https:\/\/agencia.fiocruz.br\/sites\/agencia.fiocruz.br\/files\/revistaManguinhosMateriaPdf\/RM8pag44a45FioDaHistoria.pdf<\/a>> . Acesso em:08 de jun. de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Ass: Caio, Gustavo e Eduardo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oficialmente, 1798 foi o ano da inven\u00e7\u00e3o da primeira vacina. O v\u00edrus era o da Var\u00edola, a doen\u00e7a que mais matou na hist\u00f3ria da humanidade: 30% dos infectados pelo v\u00edrus morriam. A inven\u00e7\u00e3o da vacina foi creditada ao m\u00e9dico Edward Jenner, que percebeu que os trabalhadores do campo n\u00e3o pegavam var\u00edola. 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