{"id":1063,"date":"2021-08-30T17:13:00","date_gmt":"2021-08-30T20:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1063"},"modified":"2022-03-04T11:39:46","modified_gmt":"2022-03-04T14:39:46","slug":"os-discursos-da-divulgacao-cientifica-e-a-construcao-de-imaginarios-sobre-a-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1063","title":{"rendered":"Os discursos da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e a constru\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios sobre a ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (DC), tamb\u00e9m conhecida como populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, \u00e9 um ve\u00edculo que busca levar o conhecimento cient\u00edfico para um determinado p\u00fablico n\u00e3o especializado no conte\u00fado apresentado. Vemos a ci\u00eancia, desde o seu surgimento na Gr\u00e9cia Antiga, como algo que se basearia&nbsp; em compreender verdades ou leis naturais para explicar o funcionamento das coisas e do universo em geral. No entanto, apesar de apresentar essa imagem de \u201cdescobridora de verdades\u201d, a ci\u00eancia \u00e9 realizada pela sociedade, estando sujeita a fatores pol\u00edticos, sociais e culturais. Dessa forma, podemos afirmar que a mesma tem uma relev\u00e2ncia na hist\u00f3ria e no desenvolvimento do mundo que conhecemos hoje, influenciando a forma como vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse panorama, cabe discutirmos o papel da DC na constru\u00e7\u00e3o de imagens que os indiv\u00edduos t\u00eam sobre ci\u00eancia e seu funcionamento, ou seja, de que forma o discurso presente na DC em diferentes m\u00eddias molda a concep\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia da sociedade e como isso impacta o pr\u00f3prio desenvolvimento cient\u00edfico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso \u00e9 definido como o conjunto de pensamentos e vis\u00f5es de mundo que d\u00e3o legitimidade a quem os expressa. Na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o discurso \u00e9 constru\u00eddo a partir de tr\u00eas outros: o cient\u00edfico, o jornal\u00edstico e o cotidiano. No entanto, ele se diferencia dos tr\u00eas porque \u00e9 elaborado para ser acess\u00edvel a um receptor que n\u00e3o pertence nem ao \u00e2mbito dos cientistas nem dos jornalistas [1]. Isso faz com que o divulgador se coloque entre o conhecimento cient\u00edfico e os sujeitos n\u00e3o especializados, reelaborando as informa\u00e7\u00f5es, contextualizando-as e criando met\u00e1foras. Assim, a elabora\u00e7\u00e3o do discurso divulgativo depender\u00e1 da inten\u00e7\u00e3o de quem o concebe, dos poss\u00edveis interesses mercadol\u00f3gicos e do p\u00fablico alvo [2].<\/p>\n\n\n\n<p>Como exemplo, certas vezes a DC pode ter um papel de vitrine, apresentando as \u201cmaravilhas das descobertas cient\u00edficas\u201d e expressando o car\u00e1ter utilitarista da ci\u00eancia [3]. Isso privilegia, principalmente, as \u00e1reas da sa\u00fade e da tecnologia que, por sua vez, t\u00eam maior destaque na sociedade capitalista e est\u00e3o fortemente ligadas ao mercado. Em outros momentos, d\u00e1-se a impress\u00e3o que os conhecimentos constru\u00eddos pelas ci\u00eancias s\u00e3o acumulativos, sistematiz\u00e1veis e atemporais [4], ou seja, s\u00e3o verdades absolutas e nunca entram em contradi\u00e7\u00e3o entre si.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 importante tamb\u00e9m notarmos que, mesmo involuntariamente, a DC pode refor\u00e7ar pap\u00e9is de g\u00eanero e discrimina\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a e classe presentes no pr\u00f3prio fazer cient\u00edfico. Isso acaba por corroborar com uma vis\u00e3o de ci\u00eancia hegem\u00f4nica e neutra, que n\u00e3o \u00e9 afetada pelas desigualdades na sociedade e isenta de qualquer compromisso de combater as mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os aspectos de certos discursos de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica citados at\u00e9 aqui podem, muitas vezes, dificultar o processo da DC e alguns deles podem ser exemplificados na atual pandemia de COVID-19. Primeiramente, a cren\u00e7a em uma ci\u00eancia utilitarista e redentora entra em contradi\u00e7\u00e3o com o tempo pr\u00f3prio da constru\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico, j\u00e1 que os estudos sobre o v\u00edrus e vacinas s\u00e3o processos longos e que devem ser conduzidos com muito cuidado. Ao descrever o desenvolvimento da vacina como algo miraculoso, diferente do real processo cuidadoso e extensivo, cria-se o sentimento de imediatismo ou mesmo desconfian\u00e7a acerca dos imunizantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a maneira com que as pesquisas que questionam consensos cient\u00edficos s\u00e3o divulgadas d\u00e3o a impress\u00e3o que diferentes opini\u00f5es s\u00e3o v\u00e1lidas. Isso acaba por suprimir aspectos fundamentais da ci\u00eancia, como a revis\u00e3o por pares e concord\u00e2ncia da comunidade cient\u00edfica, e, assim, promove o negacionismo da ci\u00eancia e o descr\u00e9dito sobre os cientistas [5] [6]. Tais aspectos tamb\u00e9m s\u00e3o refor\u00e7ados por faltas de investimentos e instigados pelo governo brasileiro atual (2021) em discursos que colocam em d\u00favida a integridade de cientistas e seus trabalhos. Torna-se o fazer cient\u00edfico mais complicado, podendo haver certas tens\u00f5es entre a popula\u00e7\u00e3o e os cientistas, principalmente das \u00e1reas de humanas e de sa\u00fade nesse momento de pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe, ent\u00e3o, refletirmos o que pode ser feito, tanto do lado da produ\u00e7\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica quanto da recep\u00e7\u00e3o pelo p\u00fablico em geral. Al\u00e9m do investimento na educa\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o, algo mais imediato poderia ser feito para aproximar a popula\u00e7\u00e3o dos trabalhos dos cientistas. No caso dos professores, um caminho seria utilizar textos cient\u00edficos em sala de aula para uma leitura cr\u00edtica, al\u00e9m de trazer pesquisadores para que possam explicar seus trabalhos. Por\u00e9m, as solu\u00e7\u00f5es se d\u00e3o no \u00e2mbito macro e sabemos que para conseguir mudan\u00e7as significativas e r\u00e1pidas seria necess\u00e1rio bastante investimento, o que no Brasil nos \u00faltimos anos tem ficado para \u00faltimo plano.<\/p>\n\n\n\n<p>Referencias: <\/p>\n\n\n\n<ol><li><a href=\"http:\/\/www.abrapecnet.org.br\/enpec\/x-enpec\/anais2015\/resumos\/R0874-1.PDF\">ESTUDO DA LINGUAGEM DE TEXTOS DE DIVULGA\u00c7\u00c3O CIENT\u00cdFICA<\/a> &#8211; Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.abrapecnet.org.br\/enpec\/x-enpec\/anais2015\/resumos\/R0874-1.PDF<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S1516-73132017000200321&amp;script=sci_arttext\">Language analyses of popular science texts in textbooks: contributions to Biology teaching<\/a> &#8211; Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S1516-73132017000200321&amp;script=sci_arttext<\/li><li>FOUREZ, G. <strong>A constru\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias<\/strong>: introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia e \u00e0 \u00e9tica das ci\u00eancias. S\u00e3o Paulo: UNESP, 1995.<\/li><li>ALFERES, S.; AGUSTINI, C. A escrita da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. <strong>Horizonte Cient\u00edfico<\/strong>, Uberl\u00e2ndia, v. 2, n. 1, p. 1-23, 2008.<\/li><li>Bolsonaro usa pesquisa alem\u00e3 distorcida para criticar uso de m\u00e1scaras &#8211; Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/bolsonaro-usa-pesquisa-alem%C3%A3-distorcida-para-criticar-uso-de-m%C3%A1scaras\/a-56709073\">https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/bolsonaro-usa-pesquisa-alem%C3%A3-distorcida-para-criticar-uso-de-m%C3%A1scaras\/a-56709073<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Ass: Augusto, Gessio e Mateus<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (DC), tamb\u00e9m conhecida como populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, \u00e9 um ve\u00edculo que busca levar o conhecimento cient\u00edfico para um determinado p\u00fablico n\u00e3o especializado no conte\u00fado apresentado. 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