{"id":1199,"date":"2022-09-10T19:00:44","date_gmt":"2022-09-10T22:00:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1199"},"modified":"2023-08-19T01:38:35","modified_gmt":"2023-08-19T04:38:35","slug":"e-errado-ser-anticientifissista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1199","title":{"rendered":"\u00c9 errado ser anticientificista?"},"content":{"rendered":"\n<p>Crise da modernidade\u2026 Este \u00e9 um conceito que vem sendo estudado por fil\u00f3sofos, pensadores e acad\u00eamicos contempor\u00e2neos. Sinteticamente, ela pode ser entendida como o advento de um olhar t\u00e3o especificamente subjetivo que fecha os olhos para demais aspectos envolvidos nos processos discutidos. A &#8220;pol\u00edtica de cancelamento\u201d, o uso irrestrito da \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d e mesmo o debate sobre representatividade e local de fala caem nesta mesma defini\u00e7\u00e3o. Destaquemos aqui, que n\u00e3o h\u00e1 um posicionamento un\u00e2nime sobre se este fen\u00f4meno traz aspectos positivos ou negativos \u00e0 nossa sociedade. Tomemos aqui que, e somente que, \u00e9 uma observa\u00e7\u00e3o da realidade p\u00f3s-moderna que nos encontramos, assumindo que podem existir outras. O que este texto traz \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre como isso impacta a ci\u00eancia e, com sorte, como podemos tornar este fen\u00f4meno \u201cmelhor\u201d e mais reflexivo para o que queremos construir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando inserimos o aspecto subjetivo da produ\u00e7\u00e3o humana nas discuss\u00f5es cient\u00edficas, sobretudo, \u00e0quelas que tangem \u00e0s naturais, o descr\u00e9dito a este pensamento \u00e9 quase imediato. Contudo, n\u00e3o seria inocente demais pensar que este aspecto n\u00e3o esteve sempre presente dentro da produ\u00e7\u00e3o humana? Quer dizer, a ci\u00eancia, outrora, j\u00e1 foi cumplice da igreja ao confrontar a co-exist\u00eancia igualit\u00e1ria de homens e mulheres, brancos e demais etnias, pessoas cis e trans. Podemos afirmar, com seguran\u00e7a, que estes embasamentos de alguma forma, estavam ancorados no que definimos de \u201cci\u00eancia\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Se por um lado, o questionamento de um pensamento hegem\u00f4nico nos trouxe resultados sociais positivos, hoje sofremos o fen\u00f4meno de pessoas que se posicionam diametralmente opostos ao pensamento da ci\u00eancia e que querem ser ouvidas, no mesmo espa\u00e7o, com a mesma intensidade e relev\u00e2ncia que os que produzem ci\u00eancia. Nesse sentido, convido-os a refletir sobre o \u00f3bvio: por que \u00e9 moralmente correto dar espa\u00e7o e ouvir pessoas que se op\u00f5em \u00e0 hegemonia no primeiro caso, mas n\u00e3o no segundo?<\/p>\n\n\n\n<p>Essa pergunta torna-se mais f\u00e1cil de responder quando olhamos n\u00e3o para o produto do conhecimento transmitido, mas para as bases dele. Um questionamento que parte de um pensamento de \u201cser\u00e1 que o que constru\u00edmos at\u00e9 aqui sempre esteve correto, ou erramos em determinado ponto e devemos retornar a ele?\u201d \u00e9 muito diferente de afirmar que \u201ctodo conhecimento que constru\u00edmos \u00e9 errado, vamos ignor\u00e1-lo e pavimentar um novo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, temos um apoio em nossa reflex\u00e3o sobre quais s\u00e3o as bases que a ci\u00eancia se ancora para construir seu conhecimento. A filosofia da ci\u00eancia faz esse papel sobre discutir os m\u00e9todos utilizados para as pesquisas, a fim de trazer uma valida\u00e7\u00e3o argumentativa que \u00e9 algo muito importante para o questionamento. A filosofia tenta compreender os m\u00e9todos que est\u00e3o sendo utilizados pela ci\u00eancia para estudar determinado assunto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, podemos trazer um dos principais aspectos da constru\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia de Bachelard: a vis\u00e3o de progresso cient\u00edfico, que se d\u00e1, sim, por rupturas \u00e0 vis\u00e3o predecessora, mas essas rupturas n\u00e3o se caracterizam como uma nega\u00e7\u00e3o total do passado, mas atrav\u00e9s de uma generaliza\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, isto \u00e9, o modelo que constitui o progresso deve englobar e ir al\u00e9m do modelo que ele nega, destaca-se, no entanto, que essa nega\u00e7\u00e3o se d\u00e1 na forma de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, isto \u00e9, nos pr\u00f3prios m\u00e9todos e percep\u00e7\u00f5es do fazer ci\u00eancia. Esse aspecto leva-nos a compreender quais cr\u00edticas devem, de fato, ser vistas como um convite \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, podemos buscar definir conceitos chaves para embasar nossas discuss\u00f5es que envolvem a cr\u00edtica \u00e0 ci\u00eancia. A cr\u00edtica, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o que se modula pela oposi\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o e, de fato, tanto uma vis\u00e3o construtivista quanto a vis\u00e3o negacionista se encaixam nesse aspecto: uma vis\u00e3o construtivista da ci\u00eancia que questiona suas formas, m\u00e9todos, interpreta\u00e7\u00f5es e resultados pode se encaixar no \u00e2mbito de uma vis\u00e3o anticientificista, por outro lado, a vis\u00e3o que nega esse conhecimento, m\u00e9todos e resultados se ampara muito mais na antici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas duas oposi\u00e7\u00f5es, ainda que surjam de maneiras parecidas, representam vis\u00f5es que se op\u00f5em a aspectos distintos. A ci\u00eancia diz respeito sobre, como apontado acima (destaco que existem diversas defini\u00e7\u00f5es para ela, esta, foi somente a escolhida para tecer esta linha te\u00f3rica), os dados obtidos por observa\u00e7\u00f5es de fen\u00f4menos e aplica\u00e7\u00f5es de t\u00e9cnicas, em que, atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o de dados, formulam-se&nbsp; teorias <strong>que busquem fazer a melhor aproxima\u00e7\u00e3o poss\u00edvel da realidade sens\u00edvel e os fen\u00f4menos envolvidos<\/strong>. O cientificismo, por outro lado, \u00e9 uma vis\u00e3o que se assemelha a da ci\u00eancia, mas deixa de lado uma parte importante desta defini\u00e7\u00e3o: a parte de que a ci\u00eancia trata-se de uma aproxima\u00e7\u00e3o precisa da realidade, sem que, necessariamente, a seja. Quando esquecemos deste ponto, somos levados a acreditar que os erros sistem\u00e1ticos e aleat\u00f3rios de experimentos, que a interpreta\u00e7\u00e3o de dados e que a subjetividade dos pesquisadores, n\u00e3o podem interferir nos resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, opor-se ao cientificismo, l\u00ea-se, ser anticientificista, n\u00e3o mira na ci\u00eancia ao tecer suas cr\u00edticas, mas sim visa uma produ\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia que esteja mais atrelada a suas bases epistemol\u00f3gicas. O anticientificismo est\u00e1 atrelado \u00e0 ci\u00eancia. Assim, \u00e9, de fato, uma compara\u00e7\u00e3o injusta deste pensamento com o da antici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessas informa\u00e7\u00f5es apresentadas, evidencia-se a necessidade de uma conscientiza\u00e7\u00e3o, da sociedade atual, em rela\u00e7\u00e3o ao m\u00e9todo empregado na elabora\u00e7\u00e3o de uma cr\u00edtica \u00e0 comunidade cient\u00edfica e seus paradigmas. Tendo em vista que a filosofia da ci\u00eancia se dedica ao estudo dos aspectos que possuem maior relev\u00e2ncia acerca do fazer ci\u00eancia, ela deve ser levada em conta no momento de discuss\u00e3o por todos aqueles que usam seus direitos de cidadania, a fim de opor-se \u00e0s normas e padr\u00f5es j\u00e1 estabelecidos. Portanto, uma discuss\u00e3o bem fundamentada sobre ci\u00eancia leva em considera\u00e7\u00e3o, primeiramente, que a mesma n\u00e3o \u00e9 perfeita e que, apesar de avaliada como uma aproxima\u00e7\u00e3o da realidade, \u00e9 o \u00fanico instrumento que a humanidade possui que lhe permite adquirir resultados positivos e vantajosos sobre a natureza. Segundamente, deve-se levar em considera\u00e7\u00e3o os aspectos de englobamento da ci\u00eancia antiga no empenho de seu aprimoramento, usando, para isso, a reflex\u00e3o do m\u00e9todo e suas normas junto ao entendimento de suas bases. O uso recorrente da antici\u00eancia, que \u00e9 observado na atualidade, deveria diminuir de forma que a sociedade pudesse usufruir cada vez mais de suas democracias em prol de uma busca construtiva e em conjunto pela verdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Crise da modernidade\u2026 Este \u00e9 um conceito que vem sendo estudado por fil\u00f3sofos, pensadores e acad\u00eamicos contempor\u00e2neos. Sinteticamente, ela pode ser entendida como o advento de um olhar t\u00e3o especificamente subjetivo que fecha os olhos para demais aspectos envolvidos nos processos discutidos. 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