{"id":1295,"date":"2023-04-05T13:36:53","date_gmt":"2023-04-05T16:36:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1295"},"modified":"2023-08-19T01:38:09","modified_gmt":"2023-08-19T04:38:09","slug":"o-direito-a-preguica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1295","title":{"rendered":"O Direito \u00e0 Pregui\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>Na era contempor\u00e2nea, onde os direitos s\u00e3o como migalhas dadas aos pombos e tempos aos quais as pessoas se esquecem que s\u00e3o pessoas, nasce talvez um dos grandes estigmas da sociedade moderna, ter\u00edamos n\u00f3s o direito \u00e0 pregui\u00e7a? A constru\u00e7\u00e3o social pela qual a sociedade vigente se consolidou \u00e9 edificada ao redor do modelo capitalista, circundando o conceito de executar para receber, ent\u00e3o supostamente quanto mais produzimos mais direitos recebemos. Dentro da ideologia capitalista, o conceito de efici\u00eancia impera e penetra todos os aspectos da sociedade, mas essencialmente tudo se resume \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da disparidade social entre as classes. Ent\u00e3o a cren\u00e7a em torno da efici\u00eancia apenas gera a falsa ilus\u00e3o de progresso e culmina, dentre tantas coisas, por vitimar a lucidez do presente, a in\u00e9rcia inerente ao existir e t\u00e3o logo ao pensar, sim: a pregui\u00e7a. Seria a pregui\u00e7a um aceno ao amor pr\u00f3prio ou um gesto desesperado de frear o tempo que se esvai? Seja qual for a interpreta\u00e7\u00e3o da pregui\u00e7a, ainda \u00e9 um elemento intr\u00ednseco \u00e0 exist\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o em torno do espa\u00e7o que a pregui\u00e7a tem o direito de ocupar em nossa exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 recente, precedendo at\u00e9 mesmo o capitalismo. Tal debate se inicia com o genro, n\u00e3o t\u00e3o famoso, de Karl Marx, o escritor Paul Lafargue. Em sua obra \u201cO direito \u00e0 pregui\u00e7a\u201d, Paul infere que uma sociedade capitalista faria as pessoas \u201cengolirem\u201d seus momentos de lucidez seja ela art\u00edstica, pol\u00edtica ou social em prol do progresso, destacando a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que visem proteger a psique humana. Afinal o discernimento sobre a realidade \u00e9 aquilo que d\u00e1 sentido ao progresso humano, citando Paul: \u201cA paix\u00e3o cega, perversa e homicida do trabalho transforma a m\u00e1quina libertadora em instrumento de sujei\u00e7\u00e3o dos homens livres: a sua produtividade empobrece-os\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em contraste com o sistema capitalista, o trabalho na Gr\u00e9cia antiga era visto sob maus olhos. Para os gregos, trabalhar era uma atividade dada aos escravizados e somente aqueles denominados cidad\u00e3os poderiam ter o direito de usufruir do \u00f3cio. Nesse sentido, os cidad\u00e3os gregos estavam mais preocupados em investir seu tempo com seu desenvolvimento pessoal, participando de centros comuns (\u00c1goras), discutindo assuntos pol\u00edticos e desfrutando da cultura e do conhecimento da \u00e9poca. A partir disso, emerge uma reflex\u00e3o da modernidade: Qual tem sido a preocupa\u00e7\u00e3o das pessoas, mais especificamente, dos estudantes nos dias atuais? Provavelmente, algo semelhante aos objetivos dos gregos, no entanto \u00e9 implementada de forma plenamente diferente. Na busca pelo \u00f3cio, ou na \u201cluta\u201d para poder usufruir do direito \u00e0 pregui\u00e7a, os estudantes absorvem uma percep\u00e7\u00e3o meritocr\u00e1tica e passam a fazer uso de frases de efeito, como seus objetos de motiva\u00e7\u00e3o, por exemplo: \u201cestude enquanto eles dormem\u201d, \u201csofra agora para n\u00e3o ter que sofrer depois\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio, uma caracter\u00edstica importante surge: o ato de abster-se de uma necessidade humana em prol de um objetivo considerado maior. Contudo, o que seria mais importante do que o bem estar e a sa\u00fade individual? Tal ponto evidencia a domina\u00e7\u00e3o do sistema capitalista sobre uma sociedade j\u00e1 ref\u00e9m de seus paradigmas. Atrav\u00e9s do \u00eaxodo rural, os trabalhadores associaram suas novas rela\u00e7\u00f5es humanas com as atividades realizadas nas ind\u00fastrias. Segundo Luiz Oct\u00e1vio em seu livro \u201cO que \u00e9 lazer?\u201d, o trabalho industrial imp\u00f5e uma cultura pr\u00f3pria, de acumula\u00e7\u00e3o de bens, de efici\u00eancia de tempo, diferentemente do trabalho rural que, ainda que cansativo, respeitava os limites humanos e da natureza. Assim, na cultura industrial, o in\u00edcio e fim dos expedientes s\u00e3o ditados pelas horas do rel\u00f3gio, as pausas s\u00e3o determinadas pelas necessidades da produ\u00e7\u00e3o, as tarefas s\u00e3o artificiais e repetitivas e o trabalho, portanto, se torna algo cansativo e enfadonho.<\/p>\n\n\n\n<p>Remediar o estigma sobre a pregui\u00e7a tem sido uma obra em constru\u00e7\u00e3o ao longo dos \u00faltimos s\u00e9culos, que transcende o contexto social, mas introduz elementos da \u00e9tica, pol\u00edtica, cultura e sobretudo da medicina. Ou seja, a inefici\u00eancia transparece como uma doen\u00e7a aos olhos de uma sociedade implac\u00e1vel na busca pelo progresso. Com essa desumaniza\u00e7\u00e3o, as pessoas, cada vez mais, passam a ser tratadas como m\u00e1quinas. Talvez o exemplo mais recente e contundente nesse contexto \u00e9 o desenvolvimento de medicamentos psicod\u00e9licos, que em seus resultados preliminares demonstraram um potencial singular de regular a produtividade e o humor. Do ponto de vista cient\u00edfico \u00e9 uma perspectiva excepcional, contudo como Huxley reiterou em seu livro \u201cAdmir\u00e1vel Mundo Novo\u201d \u00e0 um s\u00e9culo atr\u00e1s: \u201ca menos que prefiramos a descentraliza\u00e7\u00e3o e o emprego da ci\u00eancia aplicada, n\u00e3o como o fim a que os seres humanos dever\u00e3o servir de meios, mas como o meio de produzir uma ra\u00e7a de indiv\u00edduos livres\u201d. Nesse sentido, a ci\u00eancia deveria tornar as pessoas melhores e n\u00e3o v\u00edtimas dela. Dessa forma, esses avan\u00e7os farmacol\u00f3gicos culminam apenas por denotar a falha hist\u00f3rica da sociedade na destitui\u00e7\u00e3o de um sistema desumano, que prefere conviver com uma realidade dist\u00f3pica, \u00e0 promover coercitivamente a\u00e7\u00f5es que estabele\u00e7am dignidade a indiv\u00edduos dilacerados pelo progresso, para o progresso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Encontrar individualmente o equil\u00edbrio frente a esta realidade que se materializa \u00e9 um desafio consider\u00e1vel, mas invariavelmente uma problem\u00e1tica emerge, como orientar pessoas de modo que elas promovam seu pr\u00f3prio direito \u00e0 pregui\u00e7a? Esse paradigma envolve diretamente os docentes, que n\u00e3o devem apenas se preocupar em formar indiv\u00edduos munidos de pensamento cr\u00edtico, mas tamb\u00e9m conscientes de sua humanidade. \u00c9 indispens\u00e1vel que o indiv\u00edduo torne a respeitar seus momentos de lucidez para serem capazes de se estabelecer na sociedade, a qual n\u00e3o lhes concede este direito. Desta forma, a idealiza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de ensino devem contemplar a conscientiza\u00e7\u00e3o dos estudantes de que seus hor\u00e1rios de descanso e lazer comp\u00f5em parte vital do seu processo de aprendizagem e, assim, de suas vidas. Ent\u00e3o por fim o professor deve formar alunos pregui\u00e7osos? Sim, mas n\u00e3o de forma literal, isto pois ressoa sobre a responsabilidade do educador a forma\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos com mentalidades saud\u00e1veis, logo, que levem em considera\u00e7\u00e3o suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es ao fomentar suas prospec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na era contempor\u00e2nea, onde os direitos s\u00e3o como migalhas dadas aos pombos e tempos aos quais as pessoas se esquecem que s\u00e3o pessoas, nasce talvez um dos grandes estigmas da sociedade moderna, ter\u00edamos n\u00f3s o direito \u00e0 pregui\u00e7a? 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