{"id":1343,"date":"2023-08-02T23:54:33","date_gmt":"2023-08-03T02:54:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1343"},"modified":"2023-12-28T17:43:51","modified_gmt":"2023-12-28T20:43:51","slug":"cyber-realismo-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1343","title":{"rendered":"Cyber realismo-capitalista"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2009, Mark Fischer publicou o livro \u201cRealismo Capitalista\u201d, sua obra mais conhecida. No mesmo ano, comemorou-se o anivers\u00e1rio de 40 anos da chegada do homem \u00e0 Lua. Ainda nas comemora\u00e7\u00f5es daquele ano, o livro de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica cyberpunk \u201cNeuromancer\u201d, de William Gibson, completou 25 anos desde sua primeira publica\u00e7\u00e3o. Mas o que a chegada do homem \u00e0 lua, um livro de fic\u00e7\u00e3o e o conceito de realismo capitalista t\u00eam em comum? Talvez mais do que voc\u00ea imagina.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento cyberpunk surge nos anos 1980, sendo que o termo apareceu pela primeira vez em 1983 numa publica\u00e7\u00e3o do autor Bruce Bethke. Nesse contexto, o termo surge como a fus\u00e3o de duas ideias, o Cyber, que representa o&nbsp; avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e cient\u00edfico, e o Punk, enquanto atitude de rebeldia e, mais profundamente, a marginaliza\u00e7\u00e3o e a iconoclastia caracter\u00edsticas do movimento. O movimento liter\u00e1rio ficou mais conhecido nas obras de William Gibson, mais especificamente em seu primeiro romance, \u201cNeuromancer\u201d, que foi um sucesso, chegando a ganhar os 3 grandes pr\u00eamios da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (o pr\u00eamio Nebula, o pr\u00eamio Hugo, e o pr\u00eamio Philip K. Dick).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1969, o primeiro m\u00f3dulo lunar tripulado por humanos pousou na Lua, um feito de engenharia gigantesco que ocorreu em meio ao contexto da corrida espacial entre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e os Estados Unidos da Am\u00e9rica. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS) existiu no per\u00edodo entre 1917 e 1991, mas n\u00e3o manteve o mesmo car\u00e1ter durante todos os seus anos de exist\u00eancia. Na verdade, a hegemonia do capitalismo e a decad\u00eancia sovi\u00e9tica s\u00e3o alguns dos argumentos que Fischer utilizou para caracterizar o que ele chamou de realismo capitalista. Em 2009, o movimento cyberpunk j\u00e1 havia se saturado, a URSS j\u00e1 havia se desfeito e a tecnologia havia ultrapassado em muito aquela que levou o homem \u00e0 Lua. O advento da Internet, o ecossistema digital de blogs, as produ\u00e7\u00f5es culturais que surgiram nesse per\u00edodo e a experi\u00eancia pessoal de Fischer o levam a publica\u00e7\u00e3o de \u201cRealismo Capitalista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que \u00e9 o realismo capitalista? De acordo com o autor, trata-se de uma atitude de impot\u00eancia perante o capitalismo, ao mesmo tempo que \u00e9 uma consequ\u00eancia da hegemonia global do capitalismo tardio. Com o fim da maior experi\u00eancia de socialismo real e as outras experi\u00eancias relegadas \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o por meio de san\u00e7\u00f5es e conflitos, o capitalismo se viu sem um antagonismo direto. Esse contexto, em conjunto com o discurso da m\u00eddia hegem\u00f4nica, levou muitos a adotarem uma posi\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia reflexiva, em que a \u00fanica atitude realista perante o capitalismo \u00e9 a de que ele pode n\u00e3o ser perfeito, mas \u00e9 o \u00fanico sistema poss\u00edvel. Essas no\u00e7\u00f5es de realidade em muito permeiam a literatura cyberpunk, n\u00e3o por que ela concorde com isso, mas porque a sociedade cyberpunk \u00e9 um reflexo extremado do contexto social em que ela foi criada. Logo nas primeiras p\u00e1ginas de \u201cNeuromancer\u201d, vemos tamb\u00e9m a globaliza\u00e7\u00e3o capitalista, tanto na fic\u00e7\u00e3o quanto na realidade. Literalmente na primeira p\u00e1gina, somos recebidos com a afirma\u00e7\u00e3o: \u201cO Chatsubo era um bar de expatriados profissionais; voc\u00ea podia beber ali durante todos os dias por uma semana e nunca ouvir uma palavra em japon\u00eas.\u201d. Esse reflexo no livro pode ser evidenciado por meio do abuso de subst\u00e2ncias, da criminalidade e principalmente do acesso \u00e0 alta tecnologia at\u00e9 mesmo por aqueles que vivem \u00e0 margem da sociedade. Podemos ver esse \u00faltimo aspecto diariamente em nossa sociedade: pessoas que t\u00eam acesso a celulares de alta tecnologia, mas mal conseguem comprar comida; trabalhadores de aplicativos como Uber e iFood; no YouTube, onde existe uma luta constante entre os criadores de conte\u00fado e o algoritmo. \u201c Na era p\u00f3s-fordista \u2026 a linha de montagem transforma-se em fluxo de informa\u00e7\u00f5es\u2026\u201d. Essa frase resume muito bem o efeito anteriormente descrito. Num outro trecho, ainda do primeiro cap\u00edtulo de &#8220;Neuromancer&#8221;, vemos uma frase que evidencia outra caracter\u00edstica do realismo capitalista e da l\u00f3gica neoliberal em rela\u00e7\u00e3o ao indiv\u00edduo: a ideia de que apenas ele \u00e9 respons\u00e1vel por seu pr\u00f3prio sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO neg\u00f3cio ali era um constante zumbido subliminar, e a morte o castigo aceito por pregui\u00e7a, descuido, falta de sutileza, a incapacidade de atender \u00e0s exig\u00eancias de um intrincado protocolo.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez imposta essa l\u00f3gica, pouco importam as circunst\u00e2ncias em que voc\u00ea est\u00e1 inserido. Mesmo que seguir o \u201cprotocolo\u201d seja mentalmente destrutivo e fisicamente exaustivo, n\u00e3o se adequar ao mercado \u00e9 uma senten\u00e7a de morte longa e dolorosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua obra, Fisher diz que o realismo capitalista:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTrata-se de uma atmosfera abrangente, que condiciona n\u00e3o apenas a produ\u00e7\u00e3o cultural, mas tamb\u00e9m a regula\u00e7\u00e3o do trabalho e da educa\u00e7\u00e3o &#8211; agindo como uma esp\u00e9cie de barreira invis\u00edvel, bloqueando o pensamento e a a\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E por mais que em \u201cNeuromancer\u201d os protagonistas confrontem a elite burguesa quase inumana da fam\u00edlia Tessier Ashpool, suas a\u00e7\u00f5es jamais se direcionam a estrutura que permitiu que esses bilion\u00e1rios se distanciassem cada vez mais de sua pr\u00f3pria humanidade. No fim da hist\u00f3ria, Case termina seu trabalho para seus empregadores, sem ter certeza de quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias de seus atos, ap\u00f3s ser envolvido diretamente em uma s\u00e9rie de eventos muito maiores que ele, sendo ele mesmo algu\u00e9m que poderia ser substitu\u00eddo por outra pessoa com habilidades semelhantes. No fim das contas, essas obras nos levam a refletir sobre os passos que v\u00eam sendo tomados por nossa sociedade. Vemos que a tecnologia de hoje est\u00e1 muito mais perto da descrita na obra de Gibson do que daquela que levou o homem \u00e0 Lua, com as redes de internet banda larga, comunica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea, intelig\u00eancias artificiais e realidades virtuais. Nesse sentido, reconhecer em \u201cNeuromancer\u201d os sintomas descritos em \u2018Realismo Capitalista\u201d nos serve n\u00e3o s\u00f3 como um exerc\u00edcio de an\u00e1lise liter\u00e1ria, mas como uma reflex\u00e3o de alerta sobre nosso pr\u00f3prio futuro. Ser\u00e1 que \u00e9 do interesse de todos uma sociedade global, precarizada e fragmentada? Deve o avan\u00e7o da tecnologia agravar as tens\u00f5es sociais de nossa realidade como na literatura cyberpunk, ou deveria ele desonerar o trabalhador e melhorar sua qualidade de vida?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2009, Mark Fischer publicou o livro \u201cRealismo Capitalista\u201d, sua obra mais conhecida. No mesmo ano, comemorou-se o anivers\u00e1rio de 40 anos da chegada do homem \u00e0 Lua. Ainda nas comemora\u00e7\u00f5es daquele ano, o livro de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica cyberpunk \u201cNeuromancer\u201d, de William Gibson, completou 25 anos desde sua primeira publica\u00e7\u00e3o. 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