{"id":1433,"date":"2024-07-02T01:26:13","date_gmt":"2024-07-02T04:26:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1433"},"modified":"2024-07-02T01:27:37","modified_gmt":"2024-07-02T04:27:37","slug":"as-pseudociencias-em-tempos-de-infocracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=1433","title":{"rendered":"As Pseudoci\u00eancias em Tempos de Infocracia"},"content":{"rendered":"\n<p>No cen\u00e1rio contempor\u00e2neo, o acesso aos meios digitais se mostra cada vez mais democratizado e acess\u00edvel, uma vez que a rede mundial de computadores, internet, possui uma enorme capacidade de conectar pessoas por todo globo. A partir dessa capacidade de conex\u00e3o, o fluxo cada vez mais intenso de informa\u00e7\u00f5es tornou-se algo comum em sociedades ao redor da terra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nisso, \u00e9 seguro dizer que dentre os mais diversos tipos de informa\u00e7\u00f5es que circulam pela rede, uma em particular merece mais aten\u00e7\u00e3o: as informa\u00e7\u00f5es falsas. Voltar a concentra\u00e7\u00e3o para essa classe em espec\u00edfico n\u00e3o significa julgar o m\u00e9rito de produzir uma informa\u00e7\u00e3o falsa, mas, uma vez que elas s\u00e3o produzidas, quais s\u00e3o suas causas e consequ\u00eancias para os usu\u00e1rios da rede.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo de racionaliza\u00e7\u00e3o compreende etapas como a leitura, entendimento e checagem, os quais s\u00e3o completamente menosprezados devido ao curt\u00edssimo intervalo de tempo para a chegada de novas not\u00edcias. Em paralelo a isso, cada vez mais se observa uma ascens\u00e3o alarmante das \u201c<em>fake news\u201d<\/em>, fen\u00f4meno que se prolifera de maneira exponencial na imensid\u00e3o da internet. Byung-Chul Han, em seu livro: Infocracia, afirma que a velocidade de propaga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es \u00e9 diretamente respons\u00e1vel pela falta de racionalidade no momento de internaliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.&nbsp; Por isso, o autor estabelece que as fake news se espalham muito r\u00e1pido, pois a pr\u00f3pria checagem leva mais tempo do que o surgimento de novas not\u00edcias falsas, o que acaba levando a uma luta sem fim entre a checagem e o aparecimento de uma nova informa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dos pontos apresentados por Byung-chul Han, \u00e9 importante estabelecer uma conex\u00e3o entre os algoritmos de entrega de informa\u00e7\u00f5es e as inten\u00e7\u00f5es presentes nas grandes empresas que os utilizam. Segundo o dicion\u00e1rio \u201c<em>Oxford Languages\u201d <\/em>algoritmo \u00e9 um conjunto de regras e procedimentos l\u00f3gicos perfeitamente definidos que levam \u00e0 solu\u00e7\u00e3o de um problema em um n\u00famero finito de etapas. Sendo assim, parece v\u00e1lido dizer que a implementa\u00e7\u00e3o de algoritmos por todas as grandes plataformas de comunica\u00e7\u00e3o buscam maneiras de garantir a manuten\u00e7\u00e3o do tempo de acesso atrav\u00e9s da medi\u00e7\u00e3o do engajamento de seus usu\u00e1rios. Tal procedimento contribui para processo de priva\u00e7\u00e3o \u00e0 racionalidade\/criticidade de quem recebe tais informa\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mago desse fen\u00f4meno, as pseudoci\u00eancias encontram espa\u00e7o para florescer, apresentando-se como verdadeiros basti\u00f5es do conhecimento alternativo. Seja no campo da sa\u00fade, astronomia, ou em teorias da conspira\u00e7\u00e3o mais elaboradas, essas pseudoci\u00eancias muitas vezes ganham adeptos fervorosos que, influenciados por uma mistura de desinforma\u00e7\u00e3o e desconfian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es tradicionais, abra\u00e7am ideias que carecem de base cient\u00edfica s\u00f3lida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Simultaneamente \u00e0s fake news, impulsionadas por algoritmos que privilegiam o sensacionalismo, as pseudoci\u00eancias espalham-se como um v\u00edrus digital, contaminando a mente coletiva. A dissemina\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de informa\u00e7\u00f5es falsas n\u00e3o s\u00f3 confunde os consumidores de informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m compromete a capacidade da sociedade de discernir entre o verdadeiro e fict\u00edcio, uma vez que a racionalidade requer tempo. Byung-Chul Han afirma que: \u201cNa sociedade da informa\u00e7\u00e3o, simplesmente n\u00e3o temos tempo para a\u00e7\u00e3o racional, a coa\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o acelerada nos priva da racionalidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Os algoritmos das redes sociais tamb\u00e9m privilegiam a forma\u00e7\u00e3o de bolhas digitais, que s\u00e3o comunidades que se identificam com alguma narrativa comum entre seus membros. As narrativas que formam essas comunidades carecem de racionalidade e por isso precisam utilizar-se de outros artif\u00edcios para chamar as pessoas para dentro de suas bolhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um desses artif\u00edcios \u00e9 o Afeto, aqui entendido como &#8220;as afec\u00e7\u00f5es do corpo, pelas quais sua pot\u00eancia de agir \u00e9 aumentada ou diminu\u00edda, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afec\u00e7\u00f5es&#8221; (Spinoza, 2007). \u00c9 no momento em que a racionalidade confronta as bolhas que os afetos se tornam t\u00e3o importantes, pois num mundo em que ela se torna fraca, ou quase inexistente, os afetos tomam seu lugar, \u201cAfetos s\u00e3o mais r\u00e1pidos do que a racionalidade\u201d (Han, 2022). \u00c9 por essa raz\u00e3o que observamos discursos completamente afetivos e irracionais dentro dessas comunidades. Dessa maneira, qualquer tentativa de convencimento a partir de um discurso racional ser\u00e1 in\u00fatil, j\u00e1 que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel ter um di\u00e1logo racional contra afetos e identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se observarmos os discursos que as comunidades pseudocient\u00edficas proferem nas redes fica claro seu apelo afetivo. Elas sempre se colocam como \u201cconhecedoras de uma verdade negada ao povo\u201d, ou ainda, \u201cest\u00e3o buscando libert\u00e1-los da aliena\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d, com a finalidade de engajar emocionalmente as pessoas. Numa sociedade em que o fim da racionalidade prevalece, esse tipo de discurso \u00e9 extremamente eficaz e por isso esses movimentos v\u00eam ganhando for\u00e7a. E enquanto vivermos em uma infocracia, sistema marcado pelo fim da racionalidade, n\u00e3o h\u00e1 previs\u00f5es de melhorias.<\/p>\n\n\n\n<p>Assinado por: Alisson Pereira Maiores, Jhonathas Henning Mesquita ,Victor Hugo Pazotto<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Han, Byung-Chul. <strong>Infocracia: Digitaliza\u00e7\u00e3o e a crise da democracia<\/strong>. [<em>S. l.<\/em>: <em>s. n.<\/em>], 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>Spinoza, B. <strong>\u00c9tica<\/strong>, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Editora Aut\u00eantica, SP, 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No cen\u00e1rio contempor\u00e2neo, o acesso aos meios digitais se mostra cada vez mais democratizado e acess\u00edvel, uma vez que a rede mundial de computadores, internet, possui uma enorme capacidade de conectar pessoas por todo globo. 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