{"id":517,"date":"2020-08-03T15:00:00","date_gmt":"2020-08-03T18:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=517"},"modified":"2021-09-28T01:18:57","modified_gmt":"2021-09-28T04:18:57","slug":"o-desafio-da-representatividade-de-genero-em-cargos-de-lideranca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.petlif.ufscar.br\/?p=517","title":{"rendered":"O desafio da representatividade de g\u00eanero em cargos de lideran\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>   O acesso feminino \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal esteve historicamente em disparidade com o masculino. A educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de meninas era inicialmente restrita \u00e0 habilidades dom\u00e9sticas e leituras religiosas e as universidade passaram a aceitar mulheres em seu corpo discente a partir de meados do s\u00e9culo XIX[1] . Tal disparidade era motivada principalmente pelos pap\u00e9is sociais atribu\u00eddos aos g\u00eaneros, entre outras desigualdades culturais. <\/p>\n\n\n\n<p> Atualmente no Brasil, as mulheres compreendem mais da metade de corpo discente de universidades[2] . Por outro lado, \u00e9 bastante not\u00e1vel que a presen\u00e7a das mulheres nas chamadas \u201cci\u00eancias duras\u201d n\u00e3o \u00e9 expressiva. No geral, elas representam apenas 35% de todos os estudantes em \u00e1reas relacionadas \u00e0 Ci\u00eancia, Tecnologia, Engenharias e Matem\u00e1tica [3] . Na F\u00edsica, por exemplo, a m\u00e9dia mundial \u00e9 20-25% de mulheres do total de ingressantes no curso de gradua\u00e7\u00e3o[4] . Ao mesmo tempo, as mulheres enfrentam ainda mais dificuldades relacionadas \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero para ascender na carreira, algo conhecido como \u201cteto de vidro\u201d ou \u201clabirinto de cristal\u201d [5][6][7] <\/p>\n\n\n\n<p> Alguns podem argumentar que as mulheres t\u00eam \u201cmenos talento\u201d para as ci\u00eancias exatas do que os homens. Essa hip\u00f3tese prop\u00f5e duas premissas: de que o talento pode ser mensurado por testes padr\u00f5es e que \u00e9 algo fixo e inato. Estudos americanos fizeram um levantamento da presen\u00e7a e perman\u00eancia de mulheres e homens que tiveram notas acima da m\u00e9dia nos exames finais da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, os SATs, nas universidades[8] . Tomando o campo da matem\u00e1tica como exemplo, aproximadamente 10% das mulheres e dos homens que ingressaram na universidade, e que pertencia a esse grupo de alunos com alta pontua\u00e7\u00e3o, conseguiram o diploma de bacharelado. Contudo, a diferen\u00e7a de 2,3 homens para cada mulher com diploma cresce drasticamente para 9:1 quando se trata do n\u00edvel PhD. Mulheres \u201ctalentosas\u201d n\u00e3o s\u00e3o absorvidas pela academia na mesma taxa que os homens, conclui o estudo. <\/p>\n\n\n\n<p> Consoante, o cen\u00e1rio da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 convidativo para as mulheres no mundo todo. O Conselho de Pesquisa M\u00e9dica da Su\u00e9cia, liberou um relat\u00f3rio em 1997 que constatou que uma pesquisadora deveria ser em m\u00e9dia 2,2 vezes mais produtiva do que um pesquisador, a fim de receber o mesmo suporte financeiro[9] . No Brasil, dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) revelam uma poss\u00edvel discrimina\u00e7\u00e3o no sistema de concess\u00e3o de bolsas, j\u00e1 que, de acordo com o conselho, em 2002 a propor\u00e7\u00e3o entre pesquisadores e pesquisadoras cadastrados era de 10:8, contudo, ao analisar a concess\u00e3o de bolsas produtividade essa propor\u00e7\u00e3o cai para 10:5[10] . Al\u00e9m disso, mulheres necessitam de quase o dobro de trabalhos publicados para ingressar no sistema de bolsas para pesquisadores do CNPq e para ascender em outros n\u00edveis[11] . <\/p>\n\n\n\n<p> Um dos maiores problemas que as mulheres enfrentam para dar continuidade a sua pesquisa \u00e9 manuten\u00e7\u00e3o da produtividade durante a maternidade. Estudos[12] mostraram que a idade de ascens\u00e3o profissional na carreira cient\u00edfica coincide com a idade considerada \u201climite\u201d para que as mulheres tenham filhos. Com isso, muitas se veem obrigadas a fazer uma escolha entre carreira e vida pessoal. \u00c9 importante ressaltar que parte do problema reside no modelo de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva \u00e0 pesquisa, dito \u201cmasculino\u201d. A tradicional divis\u00e3o sexual do trabalho dom\u00e9stico ainda \u00e9 um obst\u00e1culo a ser superado que afeta diretamente a mulher que se insere no mercado de trabalho, dentro ou fora dos meios acad\u00eamicos. Com isso, temos que a mulher-m\u00e3e-pesquisadora enfrenta jornadas extensas de trabalho, diferentemente dos homens, que dificilmente enfrentam o dilema carreira-fam\u00edlia nestas situa\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p> Por todos esses aspectos, nota-se que a igualdade ainda \u00e9 uma realidade distante. A inser\u00e7\u00e3o tardia nas mais diversas \u00e1reas e a discrimina\u00e7\u00e3o simplesmente por ser mulher, possui forte influ\u00eancia na escolha para posse de um cargo. Os desafios para as mulheres n\u00e3o parecem ter mudado, s\u00f3 foram acrescentados novos. Se antes sua preocupa\u00e7\u00e3o era com casa e filhos, hoje ela tampouco deixa de ser associada a isso. No ritmo atual, seriam necess\u00e1rios 257 anos para que os sal\u00e1rios e representatividade sejam iguais no mundo do trabalho[13] . A suposta neutralidade da ci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero coloca esses temas como excludentes. Portanto, a inser\u00e7\u00e3o de discuss\u00f5es desse tipo no meio acad\u00eamico s\u00e3o necess\u00e1rias para motivar mudan\u00e7as no sistema atual e essa pauta n\u00e3o deve deixar de ocupar as m\u00eddias e os debates, para que a mudan\u00e7a ocorra em passos mais largos do que vemos hoje. <\/p>\n\n\n\n<p>Fontes:<\/p>\n\n\n\n<p> [1]CORDEIRO, M. D. Mulheres na F\u00edsica: um pouco de hist\u00f3ria.Caderno Brasileiro de Ensino de F\u00edsica v.34, n. 3 (2017) Dispon\u00edvel em: https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/fisica\/article\/viewFile\/2175-7941.2017v34n3p669 \/35427 acessado em maio de 2020. Doi: https:\/\/doi.org\/10.5007\/2175-7941.2017v34n3p669 <\/p>\n\n\n\n<p> [2]ANDIFES Mulheres s\u00e3o maioria na educa\u00e7\u00e3o profissional e nos cursos de gradua\u00e7\u00e3o. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.andifes.org.br\/mulheres-sao-maioria-na-educacao-profissional-e-nos-curs os-de-graduacao\/ acessado em maio de 2020. <\/p>\n\n\n\n<p> [3]UNESCO. Decifrar o c\u00f3digo: educa\u00e7\u00e3o de meninas e mulheres em ci\u00eancia, tecnologia engenharia e matem\u00e1tica (STEM). 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/unesdoc.unesco.org\/in\/documentViewer.xhtml?v=2.1.196&amp;id=p::usmarcdef_0 000264691&amp;file=\/in\/rest\/annotationSVC\/DownloadWatermarkedAttachment\/attach_i mport_9e2a1968-00d1-4e7e-adc7-ea5883ee5ef2%3F_%3D264691por.pdf&amp;locale=e n&amp;multi=true&amp;ark=\/ark:\/48223\/pf0000264691\/PDF\/264691por.pdf#%5B%7B%22nu m%22%3A62%2C%22gen%22%3A0%7D%2C%7B%22name%22%3A%22XYZ%22 %7D%2Cnull%2Cnull%2C0%5D acessado em maio de 2020. <\/p>\n\n\n\n<p> [4] SOUZA, Renan da Silva. MULHERES NA F\u00cdSICA: UM ESTUDO SOBRE A CULTURA DE G\u00caNERO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE S\u00c3O CARLOS <\/p>\n\n\n\n<p> [5]LIMA, Betina Stefanello. O labirinto de cristal: as trajet\u00f3rias das cientistas na F\u00edsica. Rev. Estud. Fem., Florian\u00f3polis , v. 21, n. 3, p. 883-903, dic. 2013. Disponible en .acessado em 1 de maio de 2020. https:\/\/doi.org\/10.1590\/S0104-026X2013000300007 <\/p>\n\n\n\n<p> [6] https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-49639664 <\/p>\n\n\n\n<p> [7] ABRAH\u00c3O, M. Mais mulheres na ci\u00eancia: um desafio de todos n\u00f3s. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.andifes.org.br\/mais-mulheres-na-ciencia-um-desafio-de-todos-nos\/ acessado em maio de 2020. <\/p>\n\n\n\n<p> [8] VALLIAN, Virginia. Women at the top in science and elsewhere <\/p>\n\n\n\n<p> [9] SOARES, Thereza Am\u00e9lia. MULHERES EM CI\u00caNCIA E TECNOLOGIA: ASCENS\u00c3O LIMITADA. Quimica Nova: Assuntos gerais, Recife &#8211; PE, v. 24, n. 2, p. 281-285, 2001 <\/p>\n\n\n\n<p> [10] LETA, Jacqueline. AS MULHERES NA CI\u00caNCIA BRASILEIRA: CRESCIMENTO, CONTRASTES E UM PERFIL DE SUCESSO. Estudos avan\u00e7ados, [s. l.], v. 17, n. 49, p. 271-284, 2003. <\/p>\n\n\n\n<p> [11]COTTA, M. A., CALDAS, M. J., BARBOSA, M. C.Climbing the Academy Ladder in Brazil: Physics AIP Conf. Proc. 1119, 87 (2009); Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.if.ufrgs.br\/~barbosa\/Publications\/Gender\/iupap-2008.pdf acessado em maio de 2020. doi: 10.1063\/1.3137921 <\/p>\n\n\n\n<p> [12] STANISCUASKI, Fernanda. Um estudo detalhado sobre o impacto da maternidade na carreira cient\u00edfica das mulheres brasileiras. In: PARENT IN SCIENCE, 2018. <\/p>\n\n\n\n<p> [13]http:\/\/www3.weforum.org\/docs\/WEF_Global_Gender_Gap_Report_2020_Pr ess_Release_Portuguese.pdf <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Ass: Julia Pinheiro, Caio Zuanetti, Catarine Moreira, Gustavo Siqueira<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O acesso feminino \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal esteve historicamente em disparidade com o masculino. A educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de meninas era inicialmente restrita \u00e0 habilidades dom\u00e9sticas e leituras religiosas e as universidade passaram a aceitar mulheres em seu corpo discente a partir de meados do s\u00e9culo XIX[1] . 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